Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

Respiro.
E o que sai de mim,
É uma imitação de vida.
Um suspiro passageiro que se vai,
E se deixa rastos, não sei

Mas sei que passa...

E quando olho para trás, não sei o que vejo.
Inspiro o mundo até ao silêncio
E em troca, nada recebo.
E num momento, tudo se esvai

Sinto, penso, esqueço-me
E toda a minha vida
È um rodopio de imagens sem fim
Como antigas fotos que com o tempo envelhecem

e involuntariamente morrem.

Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Vazio



I´m all that you have...nothing and everything.
(feito com tinta da china)

Sábado, 3 de Novembro de 2007

Cláudia



"Uma tristeza invadia tudo, tristeza pela vida, minha própria tristeza e pelo meu terrível dilema. Cláudia esperava por mim, Cláudia que era minha filha e meu amor."

- Entrevista com o Vampiro, Anne Rice.


Na obscuridade dos pântanos, uma figura resplandece...

Pálida, pequena e bela, contemplava os funestos arvoredos e a terra ressequida; imagens que compunham o cenário da sua vida. Caminhava com lentidão e sem rumo, e os seus passos, ainda assim, eram firmes, talvez demasiado firmes para o seu corpo frágil de porcelana. Cláudia nada temia. Era dona de si e de algo mais. Era inabalável na sua pequenez, e o seu rosto angelical ocultava a malícia de quem conhece o mundo pelos olhos de um vampiro. Os sons nocturnos adensavam-se a sua volta, sussurrando-lhe melodias conhecidas que evocavam uma profunda melancolia. E a fome adensava-se e ela estava sozinha. Desejou ter Louis ao pé de si, sentir a dureza fria do seu abraço, chama-lo de seu pai e seu amor, e convida-lo para caçar. De mãos dadas vagueariam, como muitas vezes, pela luz cintilante de Nova Orleães, e ao som da Grande Ópera, dançariam até ao amanhecer…e por fim, render-se-iam ao sono dos mortos, preparando-se para mais uma noite, onde pai e filha viveriam para a imortalidade.
Mas não hoje. Hoje Cláudia não era a filha; era a mulher. Uma aparição branca como a neve, rendida ao lívido esplendor da solidão que era sua. Amando cada partícula do seu ser, pois não havia ninguém que o fizesse por ela…

Submersa no seu calor e na sua magnificência,
afogada num corpo que já não era seu
…a eterna Boneca de Porcelana.

Sábado, 27 de Outubro de 2007

Mudez


Explica-me o que é a solidão;
o vazio onde os corpos caem
uma vez ou outra; talvez sempre
e a inocência morre.

Explica-me o que é a dor
que dilacera a alma
e arrasta o corpo;
que nos conduz gentilmente
até ao fim

Explica-me o que é a esperança;
débil, limitada, fraca
que vislumbra-nos em troça
e se vai.

Explica-me, meu amor, o que é o destino;
o que ele nos dirá? existe, será?
tarda, meu deus, tarda!
Explica-me por favor

e mostra-me o caminho...

Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

O Poço e o Pêndulo, um conto por Edgar Allan Poe

Resolvi apresentar este conto, por dois factores que considero essenciais:
- Primeiro, pela grande admiração que e gosto que tenho pelo autor;
- Segundo, porque este (o autor), em toda a sua obra, apresenta uma dualidade profunda com Fernando Pessoa, evidencia clara em o “Poço e o Pêndulo” e em poemas como é o caso de “Um sonho num Sonho”.

Como foi estudado, Pessoa apresenta-se, enquanto ortonimo, como um homem perturbado, desiludido com a vida, por considerá-la efémera, pois não há tempo para viver. Sofre da alucinante doença que é a dor de pensar; e de faze-lo constantemente. Pensa; confronta a realidade; e sofre. Refugia-se na indistinta sensação do sonho, e lá ambiciona ser algo mais. Enquanto sonha, vislumbra a felicidade, vislumbra um destino que não é seu, e, quando volta ao real; quando volta ao terreno, sente-se esmagado por ele e sufoca.

Pessoa foi, em toda a sua vida, um louco condenado à lucidez.

No conto “O Poço e o Pêndulo”, vemo-nos dentro da mente de um homem, sem nome e identidade, o qual nada se sabe sobre a sua vida, passado, e possível futuro. O seu presente, porém, é nos claro: será condenado pela inquisição por alegados actos de bruxaria. Este é o único momento em que nos é explicitado o espaço temporal da obra. O seu desenvolver, devido a profunda irrealidade a qual nos deparamos, encaixar-se-ia, provavelmente, em qualquer época.
Como reflexo da mentalidade de Poe, esta personagem denota uma profunda necessidade de fugir a realidade. Perdida em devaneios diversos, procura, através da ilusão, atenuar o seu terror pela morte. O seu julgamento, parecera-lhe uma ilusão indistinta, e indistintas são as pessoas que o julgam. “O som das vozes dos inquisidores era como um sussurro indefinido de um sonho”, e todo o processo do julgamento, “apenas silencio, imobilidade, e trevas”.
Permito-me portanto divagar sobre Pessoa e a sua evidente excentricidade. Não seria ele também condenado pela inquisição devida a grandeza monumental do seu imaginário? Não passaria ele por louco, se louco não era deveras, caso, num impulso pouco característico, expusesse ao mundo a sua lógica imaterial sobre o sentido da vida (ou talvez a ausência de um sentido)? Penso que sim. E se, naquela época, Pessoa estaria condenado, Poe estaria provavelmente morto.

A lógica é simples: os génios morrem cedo.

(a desenvolver)

Um Sonho num Sonho

Este beijo em tua fronte deponho!
Vou partir. E bem pode, quem parte,
francamente aqui vir confessar-te
que bastante razão tinhas, quando
comparaste meus dias a um sonho.
Se a esperança se vai, esvoaçando,
que me importa se é noite ou se é dia...
ente real ou visão fugidia?
De maneira qualquer fugiria.
O que vejo, o que sou e suponho
não é mais do que um sonho num sonho.

Fico em meio ao clamor, que se alteiade
uma praia, que a vaga tortura.
Minha mão grãos de areia segura
com bem força, que é de ouro essa areia.
São tão poucos! Mas, fogem-me, pelos
dedos, para a profunda água escura.
Os meus olhos se inundam de pranto.
Oh! meu Deus! E não posso retê-los,
se os aperto na mão, tanto e tanto?
Ah! meu Deus! E não posso salvar
um ao menos da fúria do mar?
O que vejo, o que sou e suponho
será apenas um sonho num sonho.

Edgar Allan Poe

Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Dama em Branco



Em algum lugar, de sonhos e de bruma
Nos refúgios da minha memória
Contemplei as Damas de vestidos brancos
entre centenas de imagens frias e gastas

Dançavam ao som natural da vida
Da palpitaçâo dos sentidos.
E sentiam na pele fria mármore
O peso dos anos e dos anos...

Flutuavam silenciosamente
num lúgubre mar de folhas mortas
choravam os invernos desolados; intermináveis.
Sentiam sem sentir, o choro de chuvas e tempestades

Num suplício agudo, estendi-lhes a mão
assomada pela angustia do seu destino;
clamei-lhes liberdade. Fui muda.
E a meiga obscuridade abateu-se sobre mim.

Acordei. A vela que se ascendeu,
deixou de emitir a sua luz cintilante
E na escuridão da noite, ergui-me do meu leito
lamentando a perda sombria

das Damas que ainda lá estão...

Domingo, 7 de Outubro de 2007

Perda


Morreram
as palavras
não ditas
desta alma incauta.

Morreram
mas com ternura
os sonhos,
privilégios divinos
do seu criador.

Morreram, ouvi-de!
para não mais voltar...
enterrados
sufocados
livres,
por fim,
de toda a dor

Morreu!
E agora jaz
o corpo,
mas não a alma
a casca,
mas não a essência
pois esta corre
livre, por fim,
daquele,
que por amor
a acorrentou.